Hamnet, dirigido por Chloé Zhao, parte do romance de Maggie O’Farrell para revisitar a tragédia de Shakespeare desde seu ponto mais íntimo: a morte do filho do dramaturgo. O filme estabelece, logo na abertura, a equivalência histórica entre os nomes “Hamnet” e “Hamlet”, sugerindo que a obra mais célebre da literatura ocidental nasce menos de uma abstração filosófica e mais de um luto visceral, doméstico e irremediavelmente humano.
Mas é bom??
Distante do Hamlet teatral marcado por retórica elevada, dilemas políticos e conflitos morais, Hamnet desloca o centro da narrativa para o silêncio e para o espaço privado. A linguagem é substituída pela iluminação natural de Zhao: a luz que atravessa janelas, o dourado do entardecer sobre os campos e o vermelho intenso do vestido de Agnes tornam-se elementos dramáticos tão expressivos quanto qualquer solilóquio.
A diretora transforma a natureza em estado emocional, usando a luz não como ornamento, mas como forma de traduzir a dor, o tempo suspenso e a memória em decomposição.
Nesse universo sensorial, Jessie Buckley emerge como o eixo absoluto do filme. Sua Agnes não é apenas mãe ou esposa, mas presença telúrica, quase mítica, que absorve e reflete a tragédia.
Buckley constrói a personagem por meio de gestos mínimos, olhares e silêncios carregados de significado, conferindo ao luto uma dimensão física e espiritual. É nela que o filme encontra sua pulsação mais profunda, corrigindo uma ausência histórica: a centralidade feminina apagada pelo teatro elisabetano.
Ao transformar a origem do clássico em um gesto de preservação da memória, Hamnet propõe que a imortalidade de Shakespeare não reside apenas no texto, mas na experiência humana que o antecede.
Uma obra delicada, contemporânea e emocionalmente devastadora.
Nota Final: 10.0





