O ÚLTIMO AZUL (2025)

Diogo Souza

29 de agosto de 2025

O Último Azul (2025) é uma distopia, onde a velhice é tratada como um problema a ser removido, não acolhido. Tereza, interpretada brilhantemente por Denise Weinberg, aos 77 anos, é convocada a viver seus “últimos dias” em uma colônia obrigatória para idosos, um eufemismo cruel para o descarte institucionalizado.

Mas é bom?

Weinberg entrega uma atuação sensível e profunda, que transmite com delicadeza a resistência silenciosa de uma mulher que se recusa a ser esquecida. Em vez de se entregar ao destino imposto, Tereza parte em uma jornada para poder voar de avião, iniciando sua jornada pelas águas amazônicas, que simbolizam muito mais do que um caminho físico: representam o tempo fluido, a memória e a busca por significado.

“Navegar é preciso” deixa de ser metáfora poética para se tornar um ato de sobrevivência, onde é preciso mover-se para realizar seu objetivo.

Já “Voar” surge como o desejo de romper limites, de alcançar objetivos que não se encaixam no que a sociedade considera possível ou aceitável.

Nessa travessia, Tereza encontra Cadu (Rodrigo Santoro), um homem igualmente deslocado, que carrega suas próprias perdas e um olhar ainda sensível diante de um mundo endurecido. Sua relação com Tereza não é de salvação, mas de cumplicidade: ambos são sobreviventes da exclusão, conectados pelo afeto, pela escuta e pelo desejo de algum sentido que vá além da utilidade social.

Nesse meio tempo, surge o caracol azul, um ser raríssimo que secreta uma substância psicodélica capaz de provocar visões profundas, onde o tempo, a identidade e o trauma se sobrepõem.

Essa substância, longe de ser mero recurso alucinógeno, atua como chave metafórica: ela rompe a lógica linear do tempo e permite que os personagens reconectem-se com suas memórias, desejos e medos.

Sob seu efeito, o passado retorna, mas não como nostalgia, e sim como enfrentamento. O caracol azul se torna símbolo daquilo que a sociedade tenta apagar:

a profundidade da experiência humana, o valor do invisível, o direito à introspecção. Sua cor, o azul,carrega também o luto, o mistério, a vastidão. Uma viagem para dentro de si que se contrapõe à velocidade superficial da vida descartável.

O tempo, como teorizou Einstein, não é absoluto, ele se estica, se comprime, muda conforme o referencial, nesse caso, numa liberdade conceitual extra científica, à emoção. Em Tereza, o tempo emocional desafia a cronologia e resiste à sentença de obsolescência.

Em paralelo, o filme mergulha na liquidez das relações humanas descritas por Bauman: laços frágeis, conexões descartáveis. Nesse mundo líquido, os velhos são esquecidos , tido como “inúteis” em um sistema que só reconhece o agora e a produtividade.

Mas o filme não é só denúncia:

Ele sugere que o verdadeiro sucesso está na persistência em existir, com uma narrativa recheada de frases de efeito e tom muitas vezes cômico, mesmo quando tudo ao redor insiste na exclusão.

Tereza não busca redenção nem glória, mas algo mais essencial: o direito de continuar sendo, vivendo sua vida como bem entender. Companheiros de jornada, que aos poucos ela vai encontrando, não são guias nem salvadores, mas fragmentos de um coletivo ferido que ainda sonha, esperam e tentam de suas maneiras, realizarem seus sentidos de vida.

Ao fim, “O Último Azul” não apenas projeta um futuro temido, ele nos obriga a rever o presente. É um manifesto contra o esquecimento, uma defesa poética da vida em todas as suas nuances e fases.

Nota Final: 9.0

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